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Kikee sentado na grama do parque Rowntree em York

O Desapego nas Relações e Seu Impacto no Processo Criativo

Em algum momento da vida, todos nós nos deparamos com a necessidade de desapegar de relações (ou crenças, objetos, locais, hábitos…). Nem sempre é fácil reconhecer, mas chega uma hora em que percebemos que algumas relações já não fazem mais sentido. Isso não significa que essas conexões foram ruins ou que não tiveram importância—apenas que evoluímos e, com isso, nossas necessidades e a forma como nos relacionamos também mudou.

Eu percebi isso de forma muito clara quando me tornei uma pessoa mais empática, capaz de ouvir com mais atenção e compreender melhor os outros. Curiosamente, essas foram habilidades que desenvolvi porque convivi com pessoas que já as tinham e me inspiraram a mudar. Essa evolução também me fez enxergar minha própria toxicidade—padrões antigos de comportamento que não combinavam mais com quem eu queria ser (julgar demais, reagir às emoções, ficar pensando no que dizer, em vez de escutar ativamente a outra pessoa…). E foi quando reconheci essas mesmas características nas minhas relações que percebi que era hora de me afastar.

O processo não foi simples. Existe uma sensação de perda, quase como um luto, quando criamos distanciamento de algumas pessoas, mesmo que saibamos que é o melhor para nós. Leva tempo para aceitar que certas conexões cumpriram seu papel e que seguir adiante é necessário para continuar crescendo.

A qualidade das relações vale mais que a quantidade

Com o tempo, percebi que a questão não era tanto sobre cortar laços, mas sim sobre escolher conscientemente com quem eu queria compartilhar minha energia. E, para isso, comecei a observar alguns critérios naturais: me conecto mais com pessoas que cuidam de si mesmas, que buscam se desenvolver, que têm interesse genuíno pelo autoconhecimento e que constroem relações equilibradas e profundas com os outros. Essas pessoas me inspiram e me fazem querer ser melhor.

O resultado dessa escolha? Mais paz. Hoje, prefiro menos conexões, mas conexões onde sinto uma maior presença da verdade. Prefiro um círculo menor e mais alinhado do que um grande grupo onde as interações são superficiais, trazem dramas, intrigas e inconsistências, revelando uma falta de consciência sobre questões pessoais e sem agregar valor real.

A verdade é que relações são sobre qualidade, não quantidade. Durante muito tempo, fui cercado por muitas pessoas, mas poucas conexões eram realmente significativas. Agora, ao reduzir meu círculo, encontrei mais espaço para cultivar amizades autênticas e trocas mais profundas.

O desapego abre espaço para a criatividade

Esse processo também teve um impacto direto no meu trabalho criativo. Antes, gastava energia tentando manter conexões ou me dedicar a projetos musicais onde minhas visões e experiências musicais não eram valorizadas. Agora, essa energia está voltada para o que realmente importa: minha arte, minha música, minhas criações.

Esse espaço mental e emocional me permitiu desenvolver um conceito essencial para qualquer artista ou profissional criativo: Deep Work—ou seja, um trabalho profundo, sem distrações e com total entrega. Antes, enquanto criava, minha mente ainda se preocupava com o que os outros poderiam julgar ou pensar, ao mesmo tempo que o meu smartphone ficava me enchendo de notificações no horário que eu deveria estar focando no meu processo. Agora, meu processo é mais livre. Escrevo versos com mais verdade, sem a necessidade de me encaixar em expectativas externas.

E o impacto disso pode ser sentido nas minhas músicas. As composições que venho criando para o meu novo álbum, previsto para 2026, trazem uma profundidade de reflexão maior, além de versos mais claros e diretos sobre desafios e transformações. Com menos ruído ao meu redor, consigo escutar melhor a minha própria voz.

A solidão se torna solitude e espaço de livre escolha

A ideia de estar sozinho pode soar como sofrimento e isolamento, mas hoje vejo de forma diferente. Minha solidão se transformou em solitude—um momento sagrado de conexão interior. É nesse espaço que surgem minhas ideias mais autênticas, minhas escolhas mais alinhadas com meu senso de propósito e identidade e minha criatividade fica mais fluida. Como a solidão se transformou em solitude? Procurando conforto no desconforto de estar sozinho, lendo livros de filosofia, autoconhecimento, psicologia, escrevendo, ouvindo músicas com letras mais reflexivas, fazendo perguntas para me conhecer melhor.

Para quem sente que precisa desapegar, mas tem medo de ficar sozinho, eu diria o seguinte: não existe certo e errado. Tudo é experimentação. Permitir-se agir de maneira diferente, abrir espaço, sentir e testar novas formas de se relacionar com os outros e consigo mesmo é o que traz clareza. Depois, você escolhe com mais consciência onde deseja investir sua atenção e energia.

No meu caso, esse afastamento aconteceu de forma natural quando minha vida me levou para longe daquilo que era familiar. Passei um ano morando no interior da Inglaterra, em York, praticamente alheio a boa parte das minhas antigas relações. Isso me permitiu enxergar tudo de uma perspectiva diferente. Algumas amizades resistiram à distância e continuaram fortes, enquanto outras simplesmente se dissolveram. E tudo bem. Nem toda relação precisa durar para sempre—o que importa é o que ela trouxe enquanto fez sentido.

Considerações finais

Um resultado mais concreto do desapego e do distanciamento foi que consegui dispender minha atenção no processo de composição, que culminou nas letras e na produção do álbum Transição, criado neste período. Transição é um álbum que trata de uma evolução interna, cheia de questionamentos, histórias da passagem por um período conturbado e pela busca de uma identidade única e verdadeira, mas também da minha evolução musical, agregando referências eletrônicas ao meu processo de produção, que antes era mais acústico.

Olhando para trás, percebo que minha vida social antes era muito mais baseada em quantidade do que em profundidade, e que muitas conexões foram criadas em eventos de música, apresentações, shows, bares e pubs. E atualmente, onde somos incentivados (ou, na música, quase obrigados) a estar sempre conectados nas redes sociais, na mídia, expostos à uma quantidade grande de informações aleatórias, pessoas e suas personas, fazer o caminho inverso pode parecer estranho. Se tem algo que aprendi, é que a felicidade não está no número de relações, mas na profundidade das conexões que escolhemos manter.

O desapego não significa isolamento, e sim uma escolha consciente de investir tempo e energia em relações que realmente fazem sentido. Se você sente que está mantendo conexões apenas por obrigação ou medo da solidão, talvez seja hora de se perguntar: o que determinada relação acrescenta à sua vida? A resposta pode não ser fácil, mas desapegar do que não tem mais espaço na sua jornada pode abrir portas para algo muito mais verdadeiro no seu processo de criação. Mas claro, vamos lembrar de agir de maneira responsável e sermos gratos à todas pessoas que cruzam nosso caminho.

Cheers, Kikee 🙏.

Você pode conhecer mais do meu trabalho no meu release oficial.